Pé na Estrada






 



 

 



14/10/2004 12:15
Nenhum desejo nesse domingo

Numa dessas tardes de domingo, em que tudo o que se quer é esquecer os problemas da semana recém passada e as preocupações da semana que vem chegando, percebi como se tornaram inúteis, a meu ver, minhas tentativas de me politizar e me definir partidariamente. E isso bem no meio de uma daquelas discussões de mesa de bar, sol batendo fraquinho na gente, copo de cerveja na mão (mais cerveja do que espuma) e temperamentos e argumentos inflamados. Foi aí que cheguei à conclusão de que, nos dias de hoje, o partidarismo não compensa.
--- De que lado você está, Thaís?
A pergunta me veio no momento menos propício, justo no ponto em que eu havia desistido de ouvir e estava mais interessada no vira-latas feio e engraçadinho que tinha resolvido descansar do meu lado.
--- De que lado?
--- Ah, de lado nenhum --- soltei despreocupadamente, para o desgosto daquela meia dúzia de pessoas que participavam do debate, algumas minhas conhecidas, outras não.
Para a minha sorte, aquilo era só uma conversa de bar, uma despretensiosa e gostosa conversa de mesa de bar. Eu estava longe da minha faculdade de Letras, longe do pretensioso ambiente acadêmico, onde uma palavra mal pensada poderia se transformar em uma má reputação por mais de um ano. Ao contrário, no meio daquela roda de amigos, uma decepção poderia durar não mais que cinco minutos. E logo começaríamos a conversar sobre o churrasco do sábado passado ou qualquer outro assunto... numa dinamicidade que só é possível depois de algumas garrafas de cerveja.
--- Lado nenhum? Como assim? --- me interrogou o mais politizado integrante do grupo.
--- Lado nenhum, ué. Prefiro ser neutra. Não sou prejudicial a qualquer facção política...
--- Ora, pois então você já se definiu: é burguesa. Não por suas atitudes, mas por sua falta de comprometimento.
E pronto, eu já tinha ganho uma posição política. E foi então que parei e pensei: mas não será possível ser realmente neutra? Olhei de volta pro meu amigo vira-latas e perguntei com o olhar se não era inútil toda essa coisas de ficarmos nos definindo. Esquerda ou direita ou centro-esquerda... Socialista, ou capitalista, ou social-trabalhista, ou liberal, ou anarquista... E o máximo que meu amigo peludo fez foi abanar o rabo umas duas vezes, abaixar a cabeça e olhar o movimento da rua. É, realmente, esse comprometimento político não me serviria de nada.
E, no momento em que o futebol já dominava o papo, percebi que, ao contrário do que me diziam, eu não era burguesa passiva. Eu era, na verdade, uma lírica falida, sempre à espera de uma inspiração que não vem, mais preocupada com o indivíduo do que com grupos. Mais atenta a sentimentos do que a ideologias.
Assim como o Belmiro de Cyro dos Anjos, penso que “onde outros vêem unidades mecânicas de massa, ou abstrações econômicas, eu vejo homens, criaturas que sentem e pensam”.
Se quiserem chamar isso de ideologia burguesa passiva, que chamem. Não importa. Eu prefiro chamar de ideologia solidária.

enviada por Rainy Day Woman






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